Highlights do 10º Simpósio Internacional de Auriculoterapia em Lyon (França)

Por Fernando Sant’anna

Seguem abaixo algumas impressões interessantes sobre o Simpósio de Lyon. Como estou assistindo online, daqui do Brasil, e existe uma diferença de 5 horas no fuso horário

 

Sexta-feira (04/06/2021)

As palestras dos professores Bruno PALISSARD e Yves MATILLON foram marcantes. Um falou sobre a Destruição e Reconstrução da Evidence Based Medicine e o outro sobre Pesquisa Clínica em Auriculoterapia. Ambos são professores renomados, consultores do Ministério da Saúde na França. Palissard chamou a atenção para a grande limitação da medicina baseada em evidências para o ser complexo e plurifatorial que é o ser humano, apesar de ser ainda o que temos de melhor. Fez questão também de ressaltar o quão importante é termos em mente essa complexidade na análise dos resultados e quando julgamos um tratamento e o quanto a medicina dita complementar (ou alternativa, por alguns) sofreu e sofre ainda pelo preconceito com que é encarada.

Matillon mostrou como a pesquisa clínica pode ser aplicada à auriculoterapia, suas múltiplas possibilidades e alguns dos trabalhos que vêm sendo feitos. Chamou a atenção para as dificuldades inerentes a esse tipo de pesquisa e avaliação em terapêuticas personalizadas como a acupuntura auricular, e que é muito difícil, embora necessário, padronizar.

À tarde, Claire-Marie RANGON falou sobre a aplicação da acupuntura auricular, através de 4 pontos na concha, em ambas as orelhas, todos tratados por ASP, no tratamento dos pacientes hospitalizados por COVID-19. Estudo feito com grupo controle no qual não se aplicava agulhas, apenas se fazia uma leve pressão sobre esses mesmos pontos. Esse estudo, randomizado, com 20 pacientes em cada grupo apenas, não mostrou diferenças entre os efeitos nos dois grupos. No entanto, essa foi uma de minhas perguntas para ela e a grande falha de seu estudo, ela não usou a detecção elétrica ou dolorosa para nenhum dos pontos tratados. Isso, em minha opinião, aliado ao tamanho reduzido da amostra, foi a grande causa de insucesso. Há muito anos Alimi já havia mostrado, nas dores neuropáticas oriundas do câncer, que tratar pontos detectados era muito melhor do que agulhar pontos não detectados, isso já foi provado. Achei uma enorme falha do estudo dela, algo inclusive que ela admitiu em plenário.

O grupo de neurocirurgia com o qual trabalha Yunsan MEAS, apresentação da Dra. Sylvie RAOUL (Universidade de Nantes), mostrou como a sedação dos pacientes com estimulação elétrica em pontos periféricos (ST-36, LI-4, LR-3 e PC-6) usando a frequência randômica (FR), possibilita o implante de eletrodos intracerebrais para a doença de Parkinson (eletrodos esses implantados em núcleos subtalâmicos, técnica conhecida como DBS – deep brain stimulation). Trata-se de cirurgia demorada (10-12 horas), mas que produz resultados excepcionais quando bem indicada, controlando totalmente esses tremores. Esses pacientes têm que ficar acordados o tempo todo, para darem feedback aos médicos de como estão, não apresentarem mais tremores, mas também sem efeitos colaterais como comprometimento de funções cognitivas. Muito interessante o trabalho apresentado (que já foi submetido para a revista Neurosurgery), mostrando o efeito extraordinário da eletroacupuntura periférica com a FR, mas também chamando a atenção para o fato de que nem todos os pacientes são responsivos, isso deve ser testado na véspera, e que se faz necessário utilizar anestesia local durante a trepanação. Mas, depois disso, nada de analgésicos a não ser algo bem leve (paracetamol), mas nenhuma utilização de fentanil ou outros opioides, mesmo no pós-operatório.

Finalizando as cinco atividades que assisti no dia 04/06, foi a minha conferência (Fernando SANT’ANNA) sobre o “Efeito da Auriculoterapia nas Angioplastias Coronarianas”. Resumindo, esse estudo randiomizado, com três grupos, publicado na revista Acupuncture & Moxibustion em 2013, mostrou que uma única sessão de auriculo antes do procedimento diminuiu significativamente o nível de ansiedade e os valores da escala de avaliação de sintomas de Edmonton nos pacientes submetidos à auriculo em relação aos pacientes que foram tratados apenas com medicação. Como eu não estava fisicamente presente, apenas acompanhando online pelo chat, os organizadores do Simpósio chamaram o Rouxeville para me apresentar e ele se derramou em elogios para todos nós no Brasil, dizendo acreditar que aqui estava um dos locais mais promissores em termos de pesquisa e ensino em auriculo e que esse trabalho, randomizado, foi um trabalho pioneiro usando a auriculoterapia pela cartografia de Nogier em âmbito hospitalar. Isso na presença de grandes nomes do cenário mundial em auriculo e acupuntura, como Raphaël Nogier, Chantal Vuillez, David Alimi e muitos outros. Ponto para o Brasil!!! E ele convidou a todos para nossa próxima apresentação, pioneira em nível mundial, no domingo, sobre o uso da frequência randômica na orelha de animais (ratos) para controle de dor neuropática induzida por constrição do nervo ciático, trabalho do Prof. Liaw Chao que tenho a honra de auxiliar e orientar a metodologia a ser usada na orelha.

 

 

Sábado (05/06/2021)

Comecei assistindo à conferência do Dr. Sébastien ABAD, novamente do grupo de neurocirurgia da Universidade de Nantes com o qual Yunsan MEAS trabalha, sobre métodos de tratamento de dores crônicas (em geral) e auriculoterapia, em particular. Já peguei a palestra em andamento, mas resumidamente ele falou sobre o aspecto multifatorial da dor, que é impossível tratar de uma só forma, chamando a atenção para o pensamento complexo e diversos aspectos que devem ser abordados, divididos em 4 grandes eixos, que infelizmente não me recordo exatamente quais. Que a auriculo, nesse aspecto, ajuda demais no controle autonômico e emocional, que hoje eles têm absoluta convicção que é muito mais importante do que o físico em si. Lembro perfeitamente dele falando que preferem alguém com dor 7 na EVA da dor lidando bem com isso através dos tratamentos aplicados, do que outro com 4 ou 5 de intensidade de dor, mas totalmente desajustado. Cabe ressaltar que isso está sendo dito e defendido por um serviço de neurocirurgia e não de terapia complementar!

Logo depois assisti a uma excelente aula e vídeo do Dr. Bernard DEFFONTAINES, aluno antigo de Paul Nogier (contemporâneo do Rouxeville), sobre o RAC-VAS e como ele o utiliza na prática clínica. Muitas dicas, sugestões práticas de como usar a Auriculomedicina no atendimento a seus pacientes em consultório de forma rápida e produtiva, uma explicação fantástica sobre a fisiopatologia do RAC-VAS, e um vídeo muito legal de um atendimento que ele filmou em seu consultório.

A seguir, a palestra do Prof. Yves ROUXEVILLE sobre como tratar, com auriculoterapia, um paciente com dor crônica, na realidade um vídeo mostrando o que ele tem feito. Muita ênfase na palpação dolorosa de ambas as orelhas e na detecção elétrica diferencial. Muito prático, excelentes resultados!

Finalmente, um vídeo do Rouxeville mostrando um atendimento em Auriculomedicina utilizando o conceito das fases de Nogier e os pontos de alta impedância elétrica cutânea. Esse foi um vídeo complexo, difícil mesmo de acompanhar, que demandava do aluno já ter uma base sólida de auriculoterapia básica e avançada. Mas muitíssimo interessante. Pela primeira vez, vi Raphaël Nogier admitir publicamente que há algo por trás dos pontos de alta impedância (Rouxeville foi muito feliz em explicá-los como pontos de baixa impedância da área ao redor do ponto), o que provavelmente está relacionado (como temos dito há alguns anos) ao desequilíbrio do sistema nervoso autônomo.

Muitas outras apresentações ainda viriam, mas eu encerrei por hoje.

 

 

Domingo (06/06/2021)

Último dia de Simpósio. Todos cansados, sala nitidamente mais vazia. Hoje me programei para assistir apenas a 3 conferências da manhã: Battlefield Acupuncture (BA), auriculo no tratamento da anosmia e disgeusia pós COVID-19 e o uso da frequência randômica em modelo de dor neuropática induzida em ratos por constrição do nervo ciático (nosso trabalho, do Liaw e meu, junto com a equipe do laboratório de experimentação do Hospital Sírio-Libanês).

A battlefield acupuncture (acupuntura de campo de batalha) foi introduzida há alguns anos no cenário internacional pelo médico e coronel da força aérea americana (já aposentado) Richard NIEMTZOW, que foi também médico do ex-presidente George W. Bush e é o editor-chefe da revista Medical Acupuncture. Baseia-se na colocação de 5 ASP em cada orelha (total: 10) nos pontos: giro cingulado, tálamo, ômega 2, zero e Shen men. Após a inserção de cada ponto se solicita ao paciente que deambule e diga o quanto de sua dor diminuiu, buscando zerar ao final. É um método interessante e foi usado em soldados no campo de batalha com bons resultados em termos de analgesia. Minha grande crítica a esse tipo de abordagem é não haver a detecção elétrica diferencial ou palpação dolorosa dos pontos ANTES do agulhamento. E nós sabemos, por inúmeros estudos já publicados, que o tratamento de pontos detectáveis produz resultados muito, mas muito superiores àqueles obtidos com agulhamento sem detecção. Recentemente foi publicado um estudo no JAMA Oncology (PEACE randomized trial, nos EUA) comparando os efeitos da eletroacupuntura e da BA em dores musculoesqueléticas em pacientes sobreviventes de câncer. Ambas mostraram resultados positivos em termos de redução de dor, mas a BA foi inferior à EA convencional e foi também menos tolerada pelos pacientes, o que era de se esperar, afinal colocar 10 ASP em uma única sessão não é pra qualquer um…

O estudo sobre anosmia e disgeusia pós COVID foi interessante, apresentado por Stéphane MAUGENDRE. Envolveu apenas 12 pacientes, prospectivo, com detecção pelo RAC-VAS e confirmação pela detecção elétrica diferencial dos pontos a serem tratados. Tratamento por infravermelho, usando um aparelho denominado GL+, da empresa italiana MicroPad, que tem tido grande apoio do Raphaël Nogier. As frequências mais associadas aos pontos encontrados foram a A -30% (A = 2,28 Hz; A -30% = 1,6 Hz) e B -30% (B = 4,56 HZ; B -30% = 3,2 HZ). Os pontos eram tratados com essas frequências em infravermelho durante alguns segundos, até o esgotamento (desaparecimento) do RAC-VAS. Foram 12 pacientes tratados, com graus variados de anosmia e disgeusia, porém numa mediana elevada (4,5 em 7), com 9 melhores agudas, em 2-3 sessões e no follow-up os 12 pacientes recuperaram totalmente olfato e paladar. Os pontos encontrados obedeceram à cartografia de Nogier com ligeiras modificações, sendo mais relacionados à representações olfativas no cérebro, em locais da orelha próximos à área límbica, no lóbulo, e ao tragus. Não lembro exatamente os nomes dados às estruturas tratadas, mas foi um estudo que ilustrou bem as possibilidades da Auriculomedicina e do tratamento com frequências de Nogier utilizando-se infravermelho, uma luz inteiramente inocente, mas que modifica a fotopercepção cutânea. Os autores fizeram a hipóteses de se tratar de fisiopatologia funcional, na qual haveria algum tipo de distúrbio no metabolismo celular causado pelo vírus, mas não em fibras nervosas. Realmente interessante esse estudo que se não me engano ficou com o terceiro prêmio ICAMAR do Congresso.

Finalizando, o estudo desenvolvido no laboratório de pesquisa experimental do Hospital Sírio-Libanês de SP, do Prof. Liaw CHAO, no qual tenho o prazer de participar, que ganhou o prêmio inovação e destaque da associação Auriculo Sans Frontières, sobre o uso da frequência randômica (2-10 Hz) no controle da dor neuropática induzida por constrição do nervo ciático em ratos. Quatro grupos de animais foram comparados: um controle falsamente operado (abre e fecha a pele, sem mexer no nervo), outro controle operado com constrição do ciático, um grupo submetido a tratamento com frequência denso-dispersa 2-10 Hz por 20 min e 40 min, outro com frequência randômica 2-10 Hz por 20 e 40 min e, finalmente, um grupo com FR em auriculo por 20 min. Resumindo um estudo complexo, que está in press na revista Acupuncture in Medicine, os grupos de FR, seja em pontos periféricos de acupuntura (como ST-36) seja na orelha, produziram um efeito bem melhor do que o controle operado e do que o grupo tratado com frequência DD em relação à alodínia, hiperalgesia e dor espontânea, efeito esse mantido por 24 horas após o término da sessão para os dois primeiros itens e 8 horas para o terceiro. Esse estudo impressionou bastante os presentes, recebeu vivos elogios do Prof. Rouxeville e não foi à toa que ganhou um dos prêmios do Simpósio.

Depois, não mais pude assistir ao Simpósio e só soube que fôramos premiados, eu e Liaw, através de terceiros e depois com confirmação do próprio Raphaël Nogier. Orgulho para a acupuntura brasileira, que rompe fronteiras!

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