Entrevista: Dr. Júlio Marchi (SC)

Júlio César Marchi

Médico e Mestre em Saúde Pública pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC);

Especialista em Acupuntura -1ª turma pela SMBA (precursora do CMBA);

Especialista em Medicina do Trabalho;

Ex-Presidente da SOMA-SC e do CMA-SC e atual Diretor de Defesa Profissional;

Preceptor do Polo Prático do Curso de Especialização em Acupuntura do CMBA de Florianópolis/SC;

Atua na Secretaria Municipal de Saúde de Florianópolis e em consultório em acupunturiatria e abordagem da dor.


–       Quem é Júlio C. Marchi?

Sou de uma geração que sobreviveu a altas taxas de mortalidade infantil e que conseguiu acesso à escola e a uma faculdade. Graças ao acesso a um ensino de melhor qualidade na cidade natal de Blumenau-SC, minha dedicação e interesse desde o ensino médio nas áreas de biologia e humanas, do apoio de minha família, consegui ser aprovado logo na primeira tentativa no vestibular na UFSC para a faculdade de Medicina.

A Universidade, em plena ditadura de 1964-84, foi um período de intensa formação técnica, humana e política, que transformou minha vida e concepções provincianas, refletindo em minha vida e opção pela Acupuntura, aliada à clínica ampliada até hoje.

Adoro interagir com a natureza e crianças, com toda radicalidade possível, trilhando caminhos mundo afora, apreciando céus estrelados e constelações diversas, ou simplesmente navegando em rios e mares, onde volto a ser menino, no oceano primitivo e ventre da pachamama.

O trabalho ainda requer a maior parte de meu tempo, atuo no consultório e na rede pública. Há muitos anos defendo e divulgo a nossa especialidade, junto ao SUS e outras entidades associativas.

–       Qual foi a sua primeira especialidade e como surgiu a sua opção pela Acupuntura? Quem foram seus mestres?

Minha primeira especialização foi em Saúde Pública, seguida pela Medicina do Trabalho e Acupuntura, antes do Mestrado. Já na graduação médica entre 1978 e 1983, fazia parte de um grupo destacado de colegas que questionava o modelo de formação médica muito segmentado por aparelhos, sistemas e especialização. Além de contribuir na organização de mudanças curriculares e ampliação da prática médica em ambulatórios, formamos no bairro da Agronômica em Florianópolis o Ambulatório para Ampliação da Arte Médica-APAAM. Esse ambulatório reunia diferentes estudantes e recém-formados nas práticas de fitoterapia, homeopatia, antroposofia, práticas corporais e saúde mental. Naquele espaço também se discutia a prática da acupuntura, tendo como referência o primeiro encontro de estudantes e médicos na área, ocorrido na UFSC na década de 70.

Após iniciar um curso especialização em homeopatia no internato, decidi atuar fora do país por três anos, principalmente como clínico geral, mas sempre com interesse na nossa especialidade.

         Ao regressar a SC, recordo meu primeiro contato com o saudoso colega e grande mestre Norton Moritz Carneiro, no seu consultório no centro da cidade, que visitei para obter informações e formas de capacitação em Acupuntura. Ao chegar no local senti um odor forte de substância sendo queimada, que me deixou em dúvida sobre as formas de abordagem que eram utilizadas na dor e outras disfunções. Mais tarde fui apresentado à prática da moxabustão e ventosa, além do agulhamento, mas ficou a lembrança em forma de anedota…

Quando entrei como concursado na Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Florianópolis, na década de 90, tive um maior contato com a Dra. Maryangela Darella, uma das precursoras da prática em nossa cidade e estado, que me orientou sobre os cursos de formação na especialidade. A partir de então realizei meu primeiro curso com o Dr Ysao Yamamura no Center Ao em São Paulo. Na sequência frequentei algumas aulas do Curso do Dr Hong e Dr. Wu em SP e acompanhei o Ambulatório de Dor da USP, coordenado pelo Dr Manoel Jacobsen e Dra Lin Tchai Yeng, eternos mestres junto com sua equipe, sempre muito receptivos, exemplos para todos que ali passavam.

         Frequentei posteriormente aulas do IPE-Instituto de Pesquisa de Ensino em Acupuntura-SC, onde conheci e reencontrei muitos colegas de referência e em formação em nosso estado. Frequentei congressos, cursos, workshops, diferentes atividades que foram essenciais para minha formação. Destacam-se a interação com Dr. Norton Moritz Carneiro, desde sua participação no IPE, a atuação conjunta junto à defesa profissional e da ampliação, reconhecimento e valorização dos procedimentos associados à acupuntura no âmbito da Unimed e outros convênios. Norton compartilhou suas pesquisas e concepções sobre a Acupuntura Contemporânea, da qual foi um dos expoentes em todo mundo, escrevendo inclusive o livro Fundamentos da Acupuntura Médica (Ed.Sistema, 2001), até hoje livro de grande referência. Estruturamos um Curso de Capacitação Médica em Acupuntura e Práticas Integrativas, quando coordenava este setor da SMS de Itajaí em SC. Foram momentos de grande aprendizado e compartilhamento de vidas e projetos. Um dos convidados do curso foi o Dr. Cláudio Couto, de Porto Alegre – RS.

A partir daí ampliei meus laços de amizade e minha formação junto ao Cláudio e destacada equipe, que se constituiria no GEANF-Grupo de Estudos de Acupuntura Neurofuncional, com uma abordagem na linha da defendida pelo Dr. Norton, em contato próximo com Alejandro Elorriaga Claraco da McMaster University de Toronto (Canadá). Frequentei vários cursos do Dr. Claraco no Brasil, além de duas visitas ao Canadá para encontros, sendo o último com vários colegas do CMA-SC e do CMBA.

–       Como foi o início da Acupuntura em Santa Catarina? Como ela se consolidou?

Alguns colegas no final da década de 70 já praticavam procedimentos relacionados à MTC/ACP em Florianópolis, nos seus consultórios privados, destacando-se o prócere Dr. Rômulo C. de Azevedo, que capacitou muitos colegas e interagiu muito com a comunidade. Infelizmente faleceu precocemente num acidente aéreo chegando à capital em 1979, junto com professores de destaque da Medicina da UFSC.

         Muitas práticas aconteciam de forma voluntária, sem grande infraestrutura e recursos públicos, dependendo do altruísmo, disponibilidade, recursos e desejo dos colegas de difundir a atuação e benefícios da futura especialidade, com grande satisfação da população assistida.

Em 1990 foi implantado o Serviço de Acupuntura na US Centro-Ambulatório Rômulo de Azevedo, também com trabalho voluntário de um dia pelos sócios da recém fundada Sociedade Médica de Acupuntura de SC-SOMA, com 3 macas e 4 atendimentos/dia, com ampliações sucessivas. Em 1993, quando atuava como diretor do Departamento de Saúde – secretário adjunto de saúde na gestão do Prefeito Sérgio Grando, a Acupuntura foi assumida como política oficial da SMS, junto com as práticas da homeopatia e fitoterapia, com melhor infraestrutura, fornecimento de medicamentos, profissionais lotados especificamente para as práticas, como a Dra Maryangela (Neca) que foi decisiva também no planejamento, com tempo parcial ou total em 5 centros de saúde da Ilha e continente, além de dois colegas na Policlínica da SES no Centro, antigo atendimento do INSS/MS.

Dr. Li Shi Min também havia iniciado o atendimento no Hospital Regional de São José, na Grande Florianópolis, numa atitude corajosa e inovadora, que seria o embrião também das primeiras residências em Acupuntura no Estado nesse Hospital e no HU – UFSC, além da criação e coordenação do próprio IPE, conforme já citado.

Entre 2008-2014 fiz a assessoria nas SMSs de Itajaí e Itapema no litoral de SC, desenvolvendo atividades de promoção e prevenção em saúde, junto com capacitação multiprofissional introdutória e organização de ambulatórios de especialidades: homeopatia, fitoterapia, abordagem da dor, yoga, Qi-cong, meditação, práticas corporais, entre outras abordagens integrativas dos usuários no SUS.

Várias médicas e médicos foram formados no estado e em cursos credenciados ao SMBA-AMBA-CMBA em todo Brasil, principalmente em SP, RS, PR e RJ, desenvolvendo a prática da especialidade em vários municípios do estado, como atividade principal ou complementar as suas demais especialidades, seja no SUS ou no sistema privado. Um dos grandes desafios neste foi a inserção da acupuntura como obrigatória a todos convênios e planos de saúde, depois de ser declarada como especialidade médica pelo CFM em 1995. Esta batalha na defesa da ampliação e garantia de acesso aos usuários do sistema suplementar de saúde caminhou junto, exigiu e exige muito esforço até hoje no reconhecimento e adequada remuneração de procedimentos associados como eletroterapia, agulhamento seco de pontos gatilhos, infiltração de pontos gatilhos, auriculoterapia, entre outros, juntos aos planos de saúde.

A organização da SOMA/SC foi muito importante para a aglutinação e organização dos colegas no âmbito da especialidade, vinculada à SMBA e mais recentemente ao Colégio Médico de Acupuntura de SC-CMASC/CMBA. Tive a honra de exercer a vice-presidência e presidência em duas oportunidades e atualmente sou o diretor de defesa profissional de nossas sucessivas entidades, o que representou múltiplos desafios, mas também permitiu um aprendizado e grande intercâmbio e articulação com as demais sociedades de especialidades médicas, reunidas na Associação Catarinense de Medicina-ACM, além do CREMESC, faculdades da área de saúde, legislativo estadual e federal, mídia, entidades estudantis, SES, SMSs, Conselhos Municipais e Estadual de Saúde. Destaco em todo este processo a organização, junto com as Diretorias do CMASC do X (2014) e XIII Congresso Sulbrasileiro de Acupuntura e V Seminário do Brasil da Filasma em 2018 (foto), tendo como tema geral: Acupuntura e suas Interfaces na Medicina do Século XXI.

–       Existem serviços de Acupuntura no SUS em SC? Existem cursos de formação em andamento? Como era no passado?

Como já relatado, os processos mais organizados de inserção da Acupuntura no SUS iniciaram na década de 80, principalmente em Florianópolis, mas também com experiências em Chapecó, Itajaí, Tubarão, Blumenau, Joinville, São José e Palhoça. Eram iniciativas de colegas especialistas ou com alguma formação em Acp/MTC. Posteriormente foram sendo incorporadas as práticas da Acupuntura biomédica, médica contemporânea e/ou neurofuncional.

Foi decisivo o início do atendimento no Hosp. Regional de São José, Hospital Universitário e estruturação de 2 residências, hoje concentrada no HU. Da mesma forma, a capacitação de médicos de família e comunidade-MFC, principalmente rede básica de saúde da capital nos últimos 10 anos, permitiu ampliar em muito a atenção nos Centros de Saúde e policlínicas de referência, além de servir de exemplo para todo o estado e país. Destacam-se além do trabalho precursor do Dr Li e Maryangela, César Simionatto, Pedrão Schimitt e Ricardo Horta, entre outros, o engajamento com grande formação, produção científica e atividades de ensino em todo país, com repercussão mundo afora dos Drs. Ari O. Moré, João Marten Teixeira e Rogério Duarte, entre outros ex-residentes de Acupuntura de Santa Catarina. Atualmente, são desenvolvidas atividades de formação e práticas na residência, graduação-internato na Medicina da UFSC, estágios curriculares, curso de Auriculoterapia, formação nas SMSs, desenvolvidos pelos colegas citados em conjunto com a Dra. Luciana Noronha do HU e a R3 Andréia R. Träsel.

Desde 2021, por solicitação do Presidente do CMBA Dr. André Tsai, contribuí na organização  e com aulas teóricas on line no Curso de Especialização Nacional do CMBA 2021-23. Um dos sete Polos Práticos do país está sendo realizado em Florianópolis, que teve o maior número de inscrições, com dezesseis colegas de SC, PR e RS. Articulamos em conjunto com o Dr. Rogério Duarte, também servidor municipal, um convênio com a SMS, realizando atividades teórico-práticas quinzenalmente na Policlínica do Continente no Estreito. Somaram-se mais três preceptores da Diretoria do CMASC e convidados, atendendo usuários do SUS, cerca de 2.000 aguardando atendimento referenciados para nossa especialidade. Há cerca de 10 anos não tínhamos um curso de especialização vinculado ao CMBA, o que nos coloca um grande desafio para esta ação prioritária, juntamente com a Coordenação Nacional do CMBA.

–   O que significa a Acupuntura na sua vida?

O desejo inicial de ampliar o atendimento ao ser humano, concretizado com as diferentes capacitações e anos de prática, evoluindo com a abordagem integrativa do ser humano, ampliada com a interação à ciência, superando dogmas e limites individuais e coletivos.

Representa também uma forma de atendimento clínico amplo, satisfação dos pacientes e desafios constantes de aprimoramento, desde o saber tradicional até a incorporação de novas tecnologias.

–   Como você vê o atual momento e o futuro da Acupuntura Médica no Brasil?

Por um lado:

– Um forte avanço organizativo, ampliação em quase todos estados de especialistas e espaços de prática;

– Fortalecimento do CMBA com novos atores e propostas em execução, equipe articulada com os colégios estaduais;

-Ampliação das residências junto aos serviços no SUS, Curso nacional do CMBA, além dos já existentes;

– Integração e reconhecimento de outras especialidades;

– Demanda crescente da população pela abordagem da Acupuntura e práticas integrativas, principalmente no SUS e reconhecimento dos procedimentos clássicos e associados à Acupuntura;

– Incorporação dos avanços da ciência, principalmente nas áreas de neuroanatomia, abordagem da dor, eletroterapia, disfunções neuro-imuno-endócrinas, entre outras, permitindo uma melhor compreensão e prática da especialidade.

Por outro lado:

– Embate maior com praticantes não médicos e outras profissões da saúde que buscam ampliar sua área de atuação. Na prática buscam ganhos mercadológicos, ampliação de cursos (grande fonte de recursos para uma gama de praticantes “energéticos” e charlatanismo), pressão de praticantes sobre o SUS, membros do legislativo e executivo;

– PL 5983/2019 no Senado, que tenta criar a profissão de acupunturista: maior desafio junto ao legislativo e executivo, desde a fundação do CMBA;

– Pandemia com mais de dois anos com desafios e avanços de toda ordem. Morbidade e mortalidade como nunca vistos nas décadas recentes, papel decisivo do SUS, que apesar do garroteamento de seus recursos foi determinante no enfrentamento da COVID 19.

– Penso que a  melhor forma de abordar as síndromes pós-COVID em milhões de pessoas no sistema público ou privado, é realizando um trabalho multiprofissional e dimensional, contrapondo-se à ideologia e práticas anti-científicas, que junto com falta de recursos, contribuem para morbidade e mortalidade, confusão da população, atraso na aceitação e baixa cobertura vacinal, com grande crise socioeconômica e sanitária.

Júlio César Marchi, junho de 2022


Início do Polo Prático do Curso Nacional de Especialização do CMBA-Floripa, out 2021


Comissão Organizadora do XIII Congresso Sulbrasileiro de Acupuntura, Floripa 2018 -Ari Moré, Heitor Kamigashima, João Marten, Júlio C. Marchi, Luiza Gentil, Magali Montagner, Maryangela Darella e Masumi Kaway

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