Pesquisa comprova que a acupuntura trata males

Com a espessura de um fio de cabelo, as agulhas de acupuntura representam alívio para quem sofre de dores e inflamações pelo corpo. Pesquisas internacionais recentes, porém, confirmam que a prática tradicional da medicina chinesa, em uso há pelo menos 3 mil anos, também pode ser eficaz no tratamento de outros males, como câncer e infecções. Além de combater os incômodos que acompanham as terapias de doenças crônicas, ela pode ajudar, por exemplo, na recuperação das sequelas provenientes de um acidente vascular cerebral.

Não são apenas os centros de pesquisa internacionais que se debruçam sobre novas indicações da acupuntura. Em Brasília, um estudo-piloto inédito realizado pelo Hospital de Base constatou que o tratamento é um importante aliado na recuperação de pacientes submetidas à cirurgia para retirada da mama. A equipe, agora, investiga os efeitos das agulhas na contenção do climatério, provocado precocemente pelos remédios tomados por mulheres que fizeram mastectomia.

“A acupuntura é baseada na restauração do funcionamento neural do organismo. Ela é expert em fazer a neuromodulação de tudo que envolve o sistema nervoso central e periférico”, explica o médico especialista em acupuntura Fernando Genschow, secretário-geral do Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura. Formado por células que se interconectam, o sistema nervoso detecta estímulos internos e externos, desencadeando respostas musculares e glandulares. Por isso, é considerado o integrador do organismo com o meio ambiente.

Genschow, que também é coordenador do Serviço de Acupuntura da Secretaria de Saúde do DF e supervisor da residência médica em acupuntura do Hospital de Base, lembra que, além da dor, a prática milenar responde bem aos problemas relacionados aos neurotransmissores do organismo. Como exemplo, o médico cita hipertensão arterial, transtornos do sono, síndromes do equilíbrio, asma, alergia, refluxo gástrico, síndrome do intestino irritável, prisão de ventre crônica, disfunção erétil, incontinência urinária e até mesmo a infertilidade masculina e feminina.

Nem tudo, porém, pode ser tratado com as agulhas. “O hipertiroidismo tem uma boa resposta porque está relacionado a uma disfunção do sistema imunológico, um dos grandes campos atuais de pesquisa da acupuntura. Já o hipotiroidismo não é neurológico, por isso não se consegue um bom efeito. É perda de tempo”, diz o médico.

Metodologia

No Centro Clínico da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, um novo estudo demonstrou a eficácia da acupuntura para combater a dor e o enrijecimento articulares de pacientes que sofrem de câncer de mama e são tratadas com terapia hormonal. Esses sintomas são efeitos colaterais comuns e afetam cerca de 50% das mulheres que fazem o tratamento à base de inibidores da aromatase, substâncias que bloqueiam a sintetização do estrogênio.

“Como os inibidores de aromatase tornaram-se uma opção muito popular e eficaz para algumas pacientes de câncer de mama, nosso objetivo foi encontrar uma opção não medicamentosa para combater os efeitos colaterais e aumentar a qualidade de vida. Além disso, por causa das dores, muitas pacientes abandonam o tratamento”, disse ao Correio o médico Dawn Hershman, principal autor do estudo e vice-diretor do programa de câncer de mama do Herbert Irving Comprehensive Cancer Center do New York-Presbyterian Hospital.

No estudo, 43 mulheres foram divididas em dois grupos, sendo que uma parte foi submetida à verdadeira acupuntura, enquanto a outra recebeu uma técnica falsa, duas vezes por semana, por seis meses. No segundo caso, o objetivo foi medir o efeito placebo. Todas as que receberam o tratamento real relataram melhorias significativas nas dores e na qualidade de vida. Já as mulheres do grupo de controle não perceberam nenhuma mudança.

Também na área oncológica, um estudo do Northwestern Memorial Hospital e do Robert H. Lurie Comprehensive Cancer Center of Northwestern University, em Chicago, mostrou que a medicina integrativa, incluindo a acupuntura, melhora a qualidade de vida e diminue as dores neuropáticas dos pacientes de câncer. “Nossa intenção é tratar toda a pessoa, não apenas a doença”, explicou ao Correio a médica Melina Ring, diretora do Centro de Medicina Integrativa e Bem-Estar do hospital.

Entre as principais queixas dos pacientes submetidos à quimioterapia e à radioterapia estão tensão muscular, dores, náusea e fadiga. Com as sessões de massagem e acupuntura, eles relataram melhorias em pouco tempo de tratamento. Embora reconheça que as técnicas não curem o câncer, Ring cita os efeitos benéficos: “Estudos mostram que 77% dos pacientes de câncer que recebem tratamento complementar acreditam que a qualidade de vida aumentou, e 73% dizem que se tornaram mais esperançosos”.

Além do tratamento das dores físicas, a acupuntura é estudada para combater problemas de origem psiquiátrica e comportamental, como ansiedade ou compulsão alimentar (veja quadro nesta página). O bancário Mauro Machado, 58 anos, conta que a técnica chinesa o ajudou muito a controlar a ansiedade e, consequentemente, diminuir o apetite.

Além disso, as agulhas foram importantes para regredir uma artrose que o impedia de pegar objetos. “Eu não tinha mais força para segurar nada. Estava ficando muito sério. Com a acupuntura, melhorei tanto que tive ânimo de voltar a estudar bateria”, conta. Para os amigos, ele costuma recomendar as sessões: “É uma técnica que vem dando certo há milênios”, lembra.

» Na China, só para médicos

Devido às complexidades da técnica, o médico Fernando Genschow, secretário-geral do Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura, defende a necessidade de um diagnóstico minucioso e preciso por parte do profissional. “Além do diagnóstico, é fundamental fazer o prognóstico. Dependendo do estágio da doença, pode ser necessário fazer apenas uma intervenção, ou várias. A acupuntura pode ser a primeira ou a única escolha”, diz. Um diagnóstico errado, lembra, pode fazer com que uma doença mais grave, como o câncer, deixe de ser tratada, levando o paciente à morte.

Genschow defende que, assim como ocorre na China, a prática seja uma exclusividade médica. “No Ocidente, é tudo muito heterogêneo e bagunçado. Na China, a acupuntura não existe como uma profissão à parte. Para exercê-la, a pessoa tem de se graduar ou em medicina tradicional chinesa, um curso universitário de cinco anos, ou em medicina ocidental, que leva seis anos, e faz mais dois anos de especialização. O mesmo vale para a odontologia e médicos veterinários”, diz.

No Brasil, a acupuntura é reconhecida como especialidade médica desde a década de 1980. Para receber o título, além da graduação em medicina, é preciso fazer uma residência de 5.888 horas. “É uma formação bastante robusta. Só a residência tem mais horas do que alguns cursos de graduação”, diz Genschow. Segundo ele, ao consultar com médicos especializados, o paciente corre menos riscos como, por exemplo, o de perfuração dos órgãos. “Quem não tem um treinamento exaustivo em anatomia pode ainda lesionar nervos”, alerta.

Fonte: Correio Braziliense 14/06/2010