Pesquisa questiona tese dos oito copos de água por dia

Virtualmente qualquer pessoa preocupada com a própria saúde pode citar a recomendação: beba pelo menos dois litros de água (oito copos de 250ml) por dia. Outras bebidas—café, chá, refrigerante, cerveja, até mesmo suco de laranja—não contam. Melancia? Nem pensar.

Não há dúvidas de que a água é boa para você, mas será que todo mundo precisa mesmo beber dois litros de água todo dia? De acordo com Heinz Valtin, professor aposentado de fisiologia da Dartmouth Medical School que se especializou na pesquisa dos rins e passou 45 anos estudando o sistema biológico que mantém a água dos nossos corpos em equilíbrio, a resposta é não.

Valtin afirma que, para as pessoas com problemas específicos de saúde, como pedras nos rins ou tendência para desenvolver infecção no trato urinário, beber muita água pode ser benéfico. No entanto, após uma pesquisa abrangente em 2002 sobre a origem do que é chamado normalmente de “guia dos oito copos” e uma revisão das vantagens para a saúde normalmente associadas a essa prescrição, ele diz não ter encontrado nenhuma evidência em favor da noção que indivíduos saudáveis precisem consumir grandes quantidades de água. Em 2008, Dan Negoianu e Stanley Goldfarb revisaram as evidências para a revista Journal of the American Society of Nephrology. Eles chegaram a uma conclusão parecida: “Não há evidências claras de benefício na ingestão de quantidades maiores de água.”

Na verdade, Valtin descobriu que o guia dos oito copos pode ter se originado de um mal-entendido. Em 1945, o Gabinete de Alimento e Nutrição, agora parte do Instituto de Medicina da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, sugeriu que uma pessoa deva consumir um mililitro de água (um quinto de uma colher de chá) para cada caloria de comida. A matemática envolvida é bastante simples: uma dieta diária de mais ou menos 1.900 calorias significaria um consumo de 1.900 mililitros de água, ou seja, quase dois litros. Mas muitos teóricos da dieta, e mesmo outras pessoas, não conseguiram enxergar um ponto crítico, que é: uma grande parte da necessidade diária de água pode ser atendida pela água contida na comida.

O Gabinete voltou ao assunto do consumo de água em 2004. Seu painel temático sobre “preferência dietária para eletrólitos e água” assinalou que mulheres que parecem adequadamente hidratadas consomem mais ou menos 2,7 litros de água, enquanto homens consomem mais ou menos 3,7 litros. Esta quantidade – aparentemente alta – vem de uma grande variedade de fontes, incluindo café, chá, leite, refrigerante, suco, frutas, vegetais e outros tipos de alimento. Em vez de recomendar a quantidade de água extra que uma pessoa deve beber para manter a sua saúde, o painel simplesmente concluiu que “a grande maioria das pessoas saudáveis atinge a sua hidratação ideal diária ao deixar que a sede seja o seu guia”.

Defensores do guia dos oito copos às vezes argumentam que a sede é um indicador ruim de hidratação. Eles asseveram que muitas pessoas estão desidratadas de forma tão crônica que nem mais reconhecem os sinais do próprio corpo pedindo água. Barbara Rolls, professora de ciências da nutrição na Pennsylvania State University, discorda. Seus estudos “não encontraram nenhuma evidência de que as pessoas estejam desidratadas de forma crônica”. Embora alguns medicamentos possam causar problemas com a regulação da sede, e as pessoas mais velhas possam sentir sede de forma menos intensa do que as pessoas mais novas, Rolls sustenta que a maior parte das pessoas saudáveis está hidratada de forma adequada.

A perda de peso é outro benefício normalmente mencionado pelos proponentes do guia dos oito copos. Eles argumentam que as pessoas confundem a sede com a fome, o que faz com que comam quando estão, na verdade, apenas com sede. Eles também alegam que beber água diminui o apetite. Considerando a crise da obesidade, qualquer pedaço (ou gota) a menos já é uma ajuda.

No entanto, Rolls discorda, argumentando que “beber água e esperar que os quilos se derretam não funciona. Todos gostaríamos que isso fosse assim tão simples”. Ela explica que “a fome e a sede são controladas por sistemas separados no corpo. Dificilmente as pessoas confundem sede e fome”. Além disso, ela relata que os seus estudos “jamais encontraram que beber água antes ou durante uma refeição afetasse o apetite”. No entanto, há elementos de verdade nesse engano comum. Rolls encontrou, na verdade, que alimentos ricos em água – em contraste com água pura – tinham a tendência de ajudar as pessoas a consumir menos calorias. Além disso, ela acrescenta que “existe um modo de a água ajudar na perda de peso — se você a beber no lugar de uma bebida calórica”.

Nem Rolls nem Valtin se opõem à idéia de incluir água em uma dieta saudável. Ambos lembram que todos nós precisamos de água e que a desidratação causa lesões ao nosso corpo. Ambos se opõem, no entanto, à noção de que um guia universalmente válido governe o consumo ideal de água. “As necessidades de água dependem tanto da temperatura externa, dos níveis de atividade e de outros fatores que não há uma única regra que se ajuste a todo mundo”, afirma Rolls. Valtin também avisa que em algumas situações beber água demais pode na verdade ser perigoso, até mesmo letal.

Então, quanta água você deve beber? Aqui vai o conselho: se você tem problemas médicos específicos, fale com o seu médico. Mas, se você é saudável, Rolls recomenda que você “tome algum líquido nas refeições e beba quando estiver com sede”. Em outras palavras, ouça os seus sinais de sede, curta aquela melancia e pare de se sentir culpado por não tomar aqueles copos extras.

Fonte: Revista Scientific American Brasil